quarta-feira, 26 de março de 2008

http://www.litcult.net/revista_litcult/revistalitcult_vol6.php?id=560
http://donadiotima.blogspot.com/2006_03_01_archive.html
http://corpoemexcessodevelocidade.blogspot.com/2007/10/s-para-irritar.html

irmã barata, irmã batata

em 81 disse à drª Manuela Brazette, psiquiatra, «Eu sou feia».
Ela disse-me «Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais».
Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego.
Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim.
Tinha-me dito «Lambia-te esse peitinho todo».
Lembrei-me também da meia dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava «Coisinha boa» e «Borrachinho».
Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens.
Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões.
Mas quem estava a avacalhar era a drª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona.
Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.

"Caras Baratas", página 222

para o drº Jaime

drº Bayard vou-me suicidar com Vicks
viver é sobreviver a uma criança constipada
a Aspirina não cura as dores da alma
a literatura inclusa não basta
ingerirei também rebuçados do drº Bentes
e pastilhas Valda

in Caras Baratas, página 80

diz um taxista quando lhe dou a morada de casa

Ja vi tudo
é a preto e branco porque é de noite
Se fosse de dia era a cores

terça-feira, 25 de março de 2008

Deus é um boomerang
e eu sou a filha pródiga
Lesma
é o meu lema

e basta

«de mar a mar entre los dos la guerra» Antonio Machado

Mas entre nós dois
não há guerra
não há mar
porque
a nossa história passa-se
em Vila Pouca de Aguiar

A PRINCESA DE BRAÇOS CRUZADOS

- Não quero trabalhar, nem estudar, o que eu quero é namorar - disse a princesa e cruzou os braços.
Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.
Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou-se a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.
E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia nenhum namorado para ela.
Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: «só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado». Todos no Museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.
Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positivista do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa dos braços cruzados.
Por isso não há bicas para ninguém.
tem frio
um frio muito fino
podia ser muito feliz
se não fosse muito infeliz
há muito de luxúria
na miséria mais extrema